Desde pequenas, as mulheres são desestimuladas a seguirem os estudos nas áreas de ciência e tecnologia. Os dados publicados pela ONU Mulheres do ano de 2018, apontam que apenas 17% dos programadores no mundo são do sexo feminino. E apesar do índice de mulheres no mercado de trabalho crescer a cada ano no Brasil, o crescimento das mesmas na área de tecnologia prossegue em ritmo desacelerado e anda em passos mais lentos. Ou seja: é preciso falar sobre os desafios da mulher na área de tecnologia e entender o motivo, além do que pode ser feito para que elas sejam estimuladas a seguir essa carreira.

Para isso, convidamos duas desenvolvedoras do Grupo  Movile, Yasmin Benatti, desenvolvedora iOS do iFood, e Mariana Fantinni, desenvolvedora frontend na Wavy para bater um papo sobre os desafios enfrentados em suas carreiras e como podemos mudar esse cenário. Confira:

Conte um pouco sobre a sua trajetória na área de tecnologia e por qual motivo escolheu trabalhar como desenvolvedora?

Yasmin: Meu nome é Yasmin Benatti e eu sou desenvolvedora iOS no iFood! Quando estava fazendo o segundo colegial, resolvi também fazer SENAI. Lá eu estudei  Mecatrônica e gostei muito da área de computação, o que me incentivou a fazer Análise de Desenvolvimento de Sistemas no Instituto Federal de São Carlos, onde comecei essa carreira. Depois eu entrei em um estágio em que aprendi mais sobre aplicações mobile e virei desenvolvedora.

Mariana: Olá, eu sou a Mariana Fantini e trabalho na Movile como desenvolvedora frontend. Sou formada em Ciências da Computação e estou na Wavy há um ano e poucos meses. Eu comecei a programar na faculdade, logo no primeiro semestre. Sempre tive influência para trabalhar na área de tecnologia por causa da minha família, já que muita gente dela está nesse ramo, é desenvolvedor ou fez algo parecido. E por sempre ter gostado de mexer com tudo isso e com jogos, acabou sendo meio natural seguir esse caminho. Por ter gostado bastante de exatas, da área e de programar, resolvi participar de um desafio de programação e foi assim que entrei no Grupo Movile.

Quais as principais dificuldades enfrentadas como mulher na área de tecnologia?

Yasmin: Eu acho que é um trabalho cansativo ser mulher em tech, porque você tem que enfrentar várias barreiras: as pessoas podem diminuir seu trabalho, podem achar que você não é capaz de fazer as mesmas coisas que os programadores homens, existem preconceitos que você tem que bater contra todos os dias. Nós temos que ter força de vontade e paciência porque também precisamos educar as pessoas. Estamos em uma sociedade que precisamos desconstruir o que as pessoas aprenderam. No meu primeiro estágio, antes de trabalhar com mobile, eu não recebia nenhuma task, porque achavam que eu não era capaz por ser a única mulher do time. Mas hoje estou trabalhando na maior foodtech do Brasil. O preconceito é muito sutil e pode transparecer em coisas menores, como um gestor que passa atividades para outras pessoas porque acha que você não consegue fazer, um outro desenvolvedor que ganha um salário maior fazendo exatamente o que você faz ou ainda uma outra pessoa que é promovida e você não, sendo que as duas são capazes exatamente da mesma forma, tecnicamente falando. Pode ser também um comentário do tipo “Você está de TPM então é por isso que está mal humorada”. Às vezes, alguns homens acreditam que as mulheres não conseguem fazer algumas coisas por serem mulheres.

Mariana: Eu acho que a principal dificuldade é a falta de representatividade, porque tem poucas mulheres na área. Eu quero contribuir para mudar esse cenário, mas, às vezes é mais difícil, por exemplo, ser ouvida. Pode ter muito homem em uma reunião e só você de mulher e podem acontecer situações meio chatas normalmente são coisas mais sutis, disfarçadas de “piada” ou de “opinião própria” que na verdade são formas de preconceito. A gente sempre tem que dar um toque falando: “Olha, o que você falou não é legal. Você falaria isso para um homem?”. E a maioria das vezes a resposta é “não”, eles não fariam certas brincadeiras com outros homens. Então apresentar o erro de uma forma respeitosa é bem importante!

Por que você acha que a área de tecnologia não tem muitas mulheres?

Yasmin: Acho que isso começa antes do mercado de trabalho, logo quando você entra em uma sala de aula de computação. Geralmente é uma sala com cem pessoas e uma porcentagem muito baixa de mulheres, o que faz as mulheres se sentirem intimidadas em entrar na área, pois não veem representação no mercado de trabalho e acabam não entrando no curso. O incentivo é um trabalho que tem que ser feito desde criança, estimulando as meninas a brincar com computador e videogames. Elas precisam ser e fazer todas as coisas que um menino faz normalmente: desmontar brinquedos, ser engenheiras e ser outras coisas que não as carreiras que consideramos “femininas”.

Mariana: É um conjunto de coisas. Desde pequenas somos desencorajadas a entrar em tech. Quando eu disse que prestaria Ciências da Computação no vestibular, ouvi muitos comentários do tipo “Nossa, mas isso não é curso de homem?”, “Mas só vai ter meninos na sua sala, vai ser só você de mulher”. Vários comentários desanimadores, além também do tabu de que programar é um bicho de sete cabeças, algo muito difícil que não vamos conseguir e que, no final, não é desse jeito. Claro que existem desafios como todas as áreas, mas não é tão difícil assim!

O que você acha que as empresas poderiam fazer para quebrar essa barreira?

Yasmin: Continuar fazendo eventos para motivar mais mulheres a participarem e palestrarem, mostrando a sua voz. Precisam reconhecê-las, destacar trabalhos bacanas dessas desenvolvedoras, contratar mais mulheres para a área de desenvolvimento, capacitá-las para que cresçam dentro da empresa e assumam cargos de liderança e C-level.

Mariana: Eu acho que é muito importante fazer campanhas para sinalizar essas diferenças, principalmente para pessoas que não enxergam que elas existem e não veem que isso acontece. Eu também gosto muito de eventos como o Women Dev Summit, TDC for Women. Gosto de eventos focados para reunir mulheres na área de tecnologia!

O que você diria para meninas e mulheres que estão começando agora?

Yasmin: Ai, cara, só vai! Não se sinta intimidada. Se é isso que você quer fazer, faz mesmo. Se você está sentindo que tem barreiras, procure mulheres para se apoiar e para que vocês possam caminhar juntas. Sempre vai ter alguém para dividir esse espaço com você, para te empurrar um pouquinho para frente. Continue mostrando seu potencial, porque as pessoas vão reconhecer! E não desista! Talvez seja um pouco difícil, mas se a gente se juntar e criar essa força juntas, nós vamos para frente e vamos dominar esse mundo!

Mariana: Eu diria: “Vão em frente, porque vai dar muito bom”. Existem dificuldades mas também é um espaço nosso e é muito legal achar um grupinho que vai te ajudar sempre. Estou falando bastante sobre mulheres mas existem muitos homens que se engajam em ajudar bastante, o que é muito legal. Se você gosta, siga em frente, não se desencoraje porque vai dar muito certo! Vamos lá, mulheres. Vamos juntas. Precisamos de mais mulheres em tecnologia. Façam cursos, aprendam e vamos caminhar juntas!

Cada vez mais as mulheres estão conquistando novos espaços, mas ainda há muito a ser feito e muito o que podemos mudar. Reconhecemos que somos responsáveis por essa mudança, e por isso, estamos buscando nos tornar uma empresa preparada para lidar com a diversidade e queremos propiciar um ambiente igualitário. Por meio do RESPECT, grupo voltado para a conscientização da diversidade dentro da Movile, trabalhamos para que mais mulheres sejam inseridas no mercado da tecnologia como um todo e em posições de liderança. E estamos fazendo isso por meio de apoio a iniciativas, grupos, causas e eventos que promovem o avanço no âmbito da igualdade de gênero.

Posted by:Camila Monteiro

Deixe seu comentário