Orgulho: Trabalhe com aquilo que você gosta

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Tem um desejo que se manifesta toda vez que paro para pensar sobre minha trajetória. Me atrevo a dizer que é algo que passa pela cabeça de toda pessoa que não se identifica como cisgênero ou como heterossexual, mas isso já é pura especulação.

O prelúdio

Passei parte da minha infância e toda minha adolescência em uma cidade minúscula do interior. Um vilarejo de 8 mil habitantes, desses em que a introdução à vida social vem com um título de honra, geralmente cunhado com base na sua linhagem (“o fi da Ana”) ou na sua função na comunidade (“a Valdete da padaria”).

Apesar de estar no lugar perfeito para explorar, andar de bicicleta e levar os tombos da infância, conforme a fase de “pertencer” se aproximava, as coisas foram ficando esquisitas.

Tanto nos detalhes, como não encontrar grupos que compartilhassem os mesmos interesses; quanto nas aflições maiores, como detestar o roteiro tradicional das pessoas da cidade: crescer, casar e ficar por ali.

A adaptação era exaustiva, mas as consequências de deixar escapar qualquer detalhe fora do padrão eram assustadoras: eram os desvios da “normalidade” que definiriam sua imagem diante da cidade para sempre (para sempre?).

A trajetória profissional

A jornada pela indústria criativa é repleta de incertezas, apostas, frustrações e descobertas. Ela varia muito de indivíduo para indivíduo, e eu vou compartilhar a minha com vocês. Para fins de reconstrução da narrativa, gosto de dividí-la em 3 etapas:

Trabalhe com aquilo que você gosta, que você não vai trabalhar um dia na sua vida

Como bom millenial floquinho de neve, cercado por uma geração de adultos frustrados com a necessidade de trabalhar para ganhar dinheiro, determinei que trabalhar com algo que eu gosto deveria ser minha missão.

Apesar de ser uma frase encorajadora, quando você nunca teve muito contato com o mercado de trabalho ela pode trazer mensagens confusas.

“Do que é que eu gosto? Jogar videogame? De fotografia? De arte? Os adultos por aí dizem que eu ‘vivo inventando moda’, ou que eu sou criativo… Talvez eu deva trabalhar com isso…”

Entrei na faculdade com o sonho de trabalhar com fotografia, arte, cinema, ou alguma coisa assim. Mergulhava em toda oportunidade que aparecia, remunerada ou não, experimentando ofícios, técnicas, metodologias e tudo que parecia fazer sentido.

Documentário, animação, roteiro, ensaio fotográfico, pesquisa acadêmica, organização de eventos, vídeo institucional, cartaz de evento, aula de stop-motion para crianças, artigo científico, videoaula, design de jogos…

Aproveitei cada uma dessas experiências, e gosto de pensar que aprendi algo com todas. Identifico até nas mais distantes do meu ofício atual aprendizados fundamentais para minha trajetória: gestão de projetos, organização de tempo, trabalho em equipe…

No entanto, conforme o tempo passava e o silêncio de recrutadores diante do meu currículo aumentava, percebi que precisava de mais foco para construir minha carreira.

Trabalhe com aquilo que você gosta, que você não vai trabalhar um dia na sua vida. Porque não vão estar contratando

Com o tempo percebi um padrão: as oportunidades que mais me davam prazer e liberdade criativa eram as não remuneradas.

As que pagavam, por mais que demandassem as habilidades que me interessavam – como fotografia, edição e pós-produção audiovisual -, envolviam outras atividades que não me agradavam nem um pouco. Por exemplo:

  • Construir uma carreira em fotografia para trabalhar com fotomontagens e “ensaios conceituais”, demandaria um tempo trabalhando com fotografias de eventos ou ensaios de bebês para poder me sustentar.
  • Construir uma carreira em edição e pós-produção audiovisual para trabalhar em filmes, documentários e outras obras que me interessavam, demandaria um tempo trabalhando com vídeos institucionais, palestras, eventos e edição de vídeos de youtubers.

Não me levem a mal, eu respeito (e muito) todos os trabalhos que trouxe como exemplo. Principalmente depois de experimentá-los. Mas percebi que eles definitivamente não eram para mim.

Segui por um tempo fazendo esses freelas, mas sempre com a promessa de que o tempo livre eu dedicaria a projetos pessoais. No entanto, a realidade era dura: depois de passar um dia editando fotos de criança, quem disse que eu ia querer abrir o Photoshop nas minhas horas vagas?

Trabalhe com aquilo que você gosta, que você nunca mais vai gostar de nada

Esta é a etapa que eu estou no momento, e muito realizado.

A frase pode parecer pessimista, mas gosto de vê-la como uma versão mais madura da primeira.

Acho que um dos maiores aprendizados da minha trajetória foi a capacidade de pensar criticamente sobre “o que eu gosto” e descobrir que é possível dividir “O que eu gosto de fazer” de “O que eu gosto de trabalhar”  e como isso é libertador.

A etapa teve início no fim do meu primeiro ano de desempregado formado. Selecionei as coisas que eu mais gostava de estudar, pesquisar e fazer (processos criativos, design, interatividade, pesquisa, cultura digital, tecnologia) e fui ver como elas se encaixavam no mercado de trabalho.

Foi aí que descobri a carreira de UX/UI Design: conversei com profissionais da área, fiz especialização em Design de Interação na Universidade de San Diego (online pelo coursera e com auxílio financeiro eles dão até certificado!) e comecei um estágio em uma startup que estava bem no comecinho.

Quando eu digo que a empresa estava começando, é porque ela era bem pequena mesmo: a equipe éramos eu + 3 desenvolvedores + 1 profissional de atendimento (isso sem contar os donos da empresa).

Nesse contexto, ser um nerd em processos acabou me ajudando bastante. Como apesar de estagiário eu era o único profissional de design, eu tive que:

    1. aprender como funcionava o processo de design de experiência em uma empresa de tecnologia e aplicar este processo; e
    2. implantar uma cultura de design e do clássico “foco no usuário” dentro da empresa

Para minha sorte, a empresa cresceu bastante e as coisas funcionaram bem!

Em dois anos a empresa já estava com 60 funcionários (e crescendo), me presentearam com um curso na Tera de Gestão de Produto e consegui chegar numa posição de liderança por lá.

Estava fazendo o que mais curtia organizando os fluxos de criação de design de produto.

Foi aí que recebi um convite da PlayKids para assumir a liderança da Equipe de Criação.

Hoje tenho o privilégio de gostar muito do que faço (liderança, gestão de projetos), e em uma empresa que faz aquilo que eu gosto (educação, literatura, games).

E é com base na minha trajetória (até agora) que olho para a famosa frase que cunhou minha primeira etapa de forma tão cética:

“Trabalhe com aquilo que você gosta (…)”

O Franco de 18 anos jamais saberia naquele momento que isso poderia ser “Liderança, Gestão de Pessoas, Gestão de Projetos” ao invés de “Videogames, fotografia e cinema”.

O Epílogo

E qual o desejo que eu mencionei no começo do texto?

É chegar pro “Fi da Ana” no auge dos seus 12 anos, lá no vilarejo do interior, e passar algumas mensagens para acalmar as ansiedades que eu sei que ele está passando:

  • Que o mundo é bem maior do que a cidade, e que o título de “o gordinho viado” seria uma mera digressão da história que ele poderia construir;
  • Que ele deve sim se esforçar para ser o melhor que conseguir, mas não por que precisa “compensar” o fato de não ser hétero. Com o tempo ele iria se descobrir o protagonista da própria história;
  • E que apesar de você se esforçar um tanto para se esconder hoje, um dia você vai fazer “ser tão gay quanto for possível” um dos seus objetivos pessoais. E isso vai ser um dos seus maiores motivos de orgulho.

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