Quando a gente é jovem e ainda não entrou no mercado de trabalho, é fácil montar aquela ideia perfeita de como as coisas vão ser quando esse momento chegar. A minha era como a de muitas pessoas por aí: mulher de negócios, elegante e de feições sérias, que toma todas as decisões e define o futuro do mundo sozinha. Eu estava indo atrás disso; cheguei até a trabalhar em uma trading e a andar de sapato alto pela Paulista. Esse sonho, entretanto, começou a se desfazer no mesmo dia em que a ponta do salto ficou presa entre as pedras da calçada da avenida e eu tive que voltar mancando para casa, sem ninguém para me ajudar ou rir da situação comigo. Era meu segundo emprego e percebia, pela primeira vez, que não era invencível.

Quando a gente é jovem, acha que vai conquistar o mundo. Essa sensação, cortesia dos hormônios da adolescência, vai desaparecendo aos poucos, na mesma medida em que se quebra o salto do sapato na rua e a cara na vida. No total, o caminho que eu tomei até chegar ao grupo Movile durou uma década, tempo essencial para que esse efeito anestésico passasse completamente e eu conseguisse analisar mais friamente todas as experiências desse período. Então, percebi três coisas: ser invencível é exaustivo demais, é solitário e é empobrecedor,

Refletindo sobre os 4 anos de Movile que completo em 2018, sou levada a acreditar que essas sementes já haviam sido plantadas em mim quando cheguei aqui; este ambiente significou a estufa ideal para elas amadurecerem. Durante as entrevistas, ouvi que, para cada ideia que dá certo, há 10 outras que falham. Na época, o diretor com quem conversei estava capitaneando um esforço chamado Playkids, que dava seus primeiros passos. Obviamente eu não sabia que esse app se tornaria uma referência em conteúdo digital infantil, mas ele me contou sobre o projeto com tanta empolgação que fiquei com vontade de participar. “Você pode errar”, disse ele, “Desde que aprenda logo com o erro e redirecione a estratégia”. A oportunidade de não ser perfeita deixou a decisão muito fácil de ser tomada.

Eu explico: invencível quer dizer que não se pode contestar; inatacável, intransponível, irrefutável. Ser invencível pressupõe força física e psicológica, conhecimentos, poder de persuasão e resiliência infinitos, entre muitas outras coisas. Pode até ser que essas qualidades venham de maneira natural e fácil para outras pessoas, mas, como só posso falar por mim, digo que ser invencível é cansativo. Não posso discutir com todos os indivíduos, argumentar a todos os momentos, ter opiniões sobre todos os assuntos, conhecer todos os processos, saber executar todas as atividades e resolver todos os problemas sozinha. Minha humanidade está exatamente na finitude dos meus recursos, então preciso escolher minhas batalhas.

Ultimamente, tenho ouvido o seguinte da minha gestora: “Você é a especialista em conteúdo, e é você que vai me dar esse suporte. Eu não entendo tanto disso quanto você, meu foco é outro.” Isso faz sentido para mim; eu escolhi esse caminho conscientemente e foi para isso que direcionei minha energia. Isso significa que não me interesso por outros assuntos e não estudo diferentes caminhos para minha carreira? Claro que não. Sempre fui uma pessoa curiosa, e não conseguiria deixar de sê-lo, mas descobri algo que sei fazer bem, pelo quê sou reconhecida e que quero continuar desenvolvendo. E que bom que o foco da minha gestora é outro – assim, a gente se complementa e eu consigo entregar o que tenho de melhor.

Depois que a parte da exaustão fica clara, o resto vem com mais facilidade. Entendo que uma pessoa que tem todas as respostas não precisa de aliados, amigos, familiares, colegas com os quais trocar pontos de vista, opiniões e conhecimentos. É mais fácil centralizar tudo, colocar o pé no acelerador e não depender de ninguém. Certo? Descobri que, no meu caso, não funciona assim. Eu não trouxe um manual de vida quando nasci – existem inúmeras maneiras de existir, e nenhuma delas é a absolutamente correta. A minha é a correta apenas para mim, e outras pessoas podem até concordar comigo; se não compartilhar isso com elas, entretanto, nunca vou ficar sabendo.

A solidão de não compartilhar está intimamente ligada ao empobrecimento de não aprender com a experiência dos outros. No início do ano passado, por exemplo, recebemos uma nova estagiária. Enquanto mostrava para ela nossas plataformas de conteúdo e passava um pouco do funcionamento da área, senti que estava tendo uma das trocas mais legais e diferentes desde minha entrada na empresa. Lá estava eu, explicando tudo que sabia para uma pessoa 10 anos mais nova e que me fazia perguntas e sugestões muito pertinentes, algumas das quais eu mesma não havia feito ainda. Nessas horas, há duas opções: sentir-se ameaçado e acovardar-se, agindo de má-fé e retendo informações para se sobressair, ou somar o que a pessoa tem a ensinar à já rica bagagem que você carrega consigo e ajudá-la a crescer também. Como não vejo sentido em gastar meu tempo com coisas negativas e acredito que jornadas de aprendizado são muito recompensadoras, vou com a segunda alternativa. Depois de um tempo, quando a vi replicando a outra estagiária o que tinha aprendido e colocando seus próprios toques, sabia que tinha feito alguma coisa boa por ela e por mim.

Veja bem: encontrei pessoas que pensam como eu durante toda a minha carreira, em todos os lugares pelos quais passei. A diferença é que, aqui, encontrei muitas, ao mesmo tempo, e sinto que posso fazer produtos e serviços excepcionais junto com elas, porque nossas energias estão voltadas para o que temos de melhor em nós. Se temos um projeto difícil pela frente, transformamos uma das salas de reunião em war room e levamos docinhos da gravação que rolou à tarde para animar quem vai ficar trabalhando. Se o projeto é um sucesso, ressaltamos que o importante foi o fato de termos o mesmo objetivo e trabalharmos juntos para chegar até lá. Se o projeto fracassar, temos lições aprendidas e as lembranças do pé de moleque de chocolate. Nós fazemos a Movile. É o que funciona para mim: agir conscientemente, aprendendo com as pessoas que estão dispostas a ensinar e ensinando o que souber e puder para quem tiver interesse em ouvir — se der para ser de sapatilhas, então, melhor ainda.

Jornalista e bacharel em Relações Internacionais especializada em curadoria, gestão e estratégia de conteúdo para serviços e produtos digitais.

Posted by:Ana Baars

<span class="lt-line-clamp__line">Jornalista e bacharel em Relações Internacionais especializada em curadoria, gestão e estratégia de</span> <span class="lt-line-clamp__line lt-line-clamp__line--last">conteúdo para serviços e produtos digitais.</span>

Deixe seu comentário