Carreira em tecnologia e minha história de transição

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Em Setembro de 2019 dei uma palestra na Semana da Diversidade da Movile contando duas histórias: uma sobre as origens da empresa e, em paralelo, a minha história de transição. Este post é uma adaptação do que foi falado por lá. Espero que goste!

Olá. Profissionalmente, sou conhecida como Cyber, tenho 43 anos e me formei em Engenharia da Computação na PUC-Rio.

 Nasci em 1977 e em 87 ganhei meu primeiro computador. Um MSX 1.1 Gradiente (pra quem curte arqueologia digital 😊). Desde então, imergi nesse mundo digital.

Aos 22 anos de idade, já na faculdade, conheci meus sócios. Já fizemos mais de 20 anos de sociedade!A história do nosso encontro está bem ilustrada e resumida no famoso vídeo do canal da Endeavor chamado “Conexões que movem a vida”.

Um dos meus sócios desenvolvia sites WML e para testá-los ele precisava digitar as URLs “catando milho” naqueles teclados de Nokia.

Então, surgiu a ideia de criar um portal pessoal de bookmarks, onde ele gerenciaria seus links na tela gigante de 17″ de um PC, mas que seria acessado via WAP+WML do seu celular.

Ele resolvia uma dor própria, mas se deu conta de que poderia vender essa ideia para as operadoras (que ele tinha acesso por trabalhar em uma empresa pioneira de mobile).

Encurtando um pouco a história, essa ideia virou a empresa nTime, que foi incubada no Instituto Gênesis (incubadora de empresas da PUC-Rio)  no ano de 2001.

Microsoft

Em 2006, resolvi tirar um período sabático do mundo do empreendedorismo e fui passar uma temporada em Seattle, trabalhando pro Bill Gates (na época ele ainda trabalhava por lá!).Fiquei lá 2 anos e meio certinho. Foi uma experiência inesquecível. Fiz amizades para a vida toda (de todas as regiões do Brasil e de alguns continentes).

Essa é uma experiência que recomendo a todos, para sentir na pele mesmo. Mas não é para todos. Não foi pra mim.

Compera nTime

Enquanto eu estava fora, em 2007, a nTime tinha se unido à empresa Compera, de Campinas,  e agora se chamava Compera-nTime, a maior empresa de soluções móveis do Brasil. A empresa estava se reestruturando e aprendendo a lidar com a nova formação.

Encurtando mais um pouco a história, em fevereiro de 2011 a empresa já estava mais madura e estruturada, e já se chamava Movile. A área que eu trabalhava foi encerrada no Rio de Janeiro. Hora de empreender de novo!

21212

Em março de 2011, três sócios da nTime se uniram com outros sócios brazucas e internacionais para criar a primeira aceleradora de empresas binacional do Brasil: nascia então a 21212.

Mais de 40 empresas passaram pelo processo de aceleração nos 4 anos de operação da 21212. Em 2015, com a situação da economia do nosso país, resolvemos suspender a operação da empresa.

Dessa vez tiramos um tempo para colocar os pensamentos no lugar e estudar qual seria nossa próxima aposta.

CyberLabs

Então, trazendo nossos mais de 15 anos de experiência na criação de empresas e de produtos, demos início à CyberLabs em 2017.

Estamos nos dedicando fortemente a um produto, o KeyApp. Com ele você, vai poder realizar ações no mundo físico sem contato, bastando ou scanear um QRCode ou simplesmente se identificar com seu rosto. As possibilidades são ilimitadas!Quem quiser acompanhar nossas novidades, siga-nos no Instagram e Facebook. E, claro, no nosso site CyberLabs.ai.

A maior lição que ficou desses 20 anos de empreendedorismo foi a construção de times de amigos. Em todas as empresas que criamos, nós sempre procuramos trazer para o time pessoas que poderiam ser nossas amigas. Não à toa, todos são saudosos e torcem para que voltemos, em todas as empresas. 😊

A outra linha do tempo e minha história de transição

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Agora vamos voltar para o início mais uma vez.

Olá! Meu nome é Monique, tenho 43 anos e sou uma mulher transgênero.

Nasci em 1977 e fui batizada como Leonardo. Hoje em dia brinco dizendo que ele é o meu irmão mais velho :)

Me apresentei como Mulher Transgênero. Quando contei minha história no Facebook, alguns amigos nunca tinham ouvido falar na palavra transgênero. Então recorri à Wikipédia para nos elucidar:

“O cisgênero tem sua origem no prefixo derivado de latim cis– , que significa “deste lado de“, que significa o oposto de trans– , que, por sua vez,  significa “em frente de” ou “do outro lado de“. Este uso pode ser visto na distinção cis-trans em química; o cis-trans ou teste de complementação em genética; em Ciscaucasia (do ponto de vista russo); no antigo termo romano Cisalpine Gaul (isto é, “Gália deste lado do Alpes”); Ciskei e Transkei (separados pelo rio Kei); e, mais recentemente, Cisjordânia, como distinto da Transjordânia. No caso do sexo, cis descreve o alinhamento de identidade de gênero com o sexo atribuído.”

Nasci no ano de 1977, então boa parte da minha infância foi passada na década de 1980. Nesta época, o planeta era completamente diferente do que conhecemos hoje. Não tinha celular, não tinha Google, não tinha internet.

A sociedade era muito mais hostil e as informações muito escassas. O machismo e a homofobia eram o normal. Não falei de transfobia porque esse nome nem existia ainda.

Mas desde os 3 anos de idade, nas minhas primeiras lembranças, sentia algo diferente, que “não era certo” pro padrão da época. Começava ali uma vida de medo. Medo de transparecer, medo de ter que encarar, medo de ser o que eu era.

Aos 10 anos de idade ganhei meu primeiro computador e ele foi minha válvula de escape para não ter que encarar questões do “mundo real”.

Na época da adolescência eu ia aos bailes de debutante e ficava viajando na produção das minhas amigas. Sem me levantar a noite toda da cadeira.

Como nessa época me faltavam exemplos e referências (a tal representatividade), eu fiz um pacto comigo mesma. Ia seguir o plano de fazer Engenharia da Computação e continuar guardando esse meu lado de todos. Começando por mim.

Fui tentando levar uma vida normal. Comecei um namoro aos 19 anos. Adorava dar presentes, ir a lojas de calçados (sempre com o coração disparado) para comprar sandálias “pra ela”.

Dez anos depois, quando me mudei para os Estados Unidos, levei minha namorada da época para ir morar comigo. Para isso, era necessário tirar um visto especial de casado. Seguimos em matrimônio por 7 anos (2007-2014) até voltarmos  ao Brasil.

Divórcio

Meu final de relação foi bastante doloroso, uma sensação de nadar, nadar e morrer na praia.Mas não tinha como ser diferente. Eu estava há mais de 3 décadas tentando tapar o sol com uma peneira.

Passei um tempo achando que eu fosse crossdresser (uma pessoa que se sente bem ao vestir-se com roupas do gênero oposto), pois era só o que eu fazia até então.

Neste momento já estava morando sozinha (pela primeira vez na vida). Fiz algumas compras na internet e morria de medo do pacote denunciar de alguma forma. Roupas, maquiagem, sapatos, peruca… comprei de tudo um pouco.

Então pude, finalmente, me ver inteira pela primeira vez. Nesta época já deixava o cabelo crescer e comecei a cuidar das unhas. Mais um item pra lista de “medo das pessoas perceberem”.

No ano seguinte (2015) comecei a psicoterapia e, desde o primeiro dia, joguei limpo: estava ali para descobrir o que eu era.

A terapia foi fundamental para eu estar aqui hoje. Foram passos de bebê. Muitos desafios, confrontos, choros e viagens ao passado.

Terapia Hormonal

Depois de 2 anos de terapia, conversei com minha terapeuta sobre procurar um médico endocrinologista para conversar sobre HRT (terapia de substituição hormonal).

Neste momento, o medo já estava bem menor. Não ligava mais para as características físicas transparecerem. Os cabelos já estavam ficando longos, as unhas feitas (às vezes de base, às vezes de rosa clarinho ou nudes discretos). Tinha cada vez menos o que esconder.

Então, fui contando para as pessoas. Uma a uma. Como que num ensaio, fui praticando com amigas, com minha mãe, meus sócios, meu pai e mais alguns amigos.

A Viagem de 2018

Como já fazia 9 anos que eu havia retornado ao Brasil e nunca mais tinha voltado a Seattle, me planejei para visitar meus amigos brazucas de lá e, quem sabe, contar para alguns também. Passaria uma semana lá e depois 10 dias em Miami, fazendo umas comprinhas para o novo armário que precisaria começar.

Por que fazer compras em Miami? Porque lá seria jogar o jogo no modo fácil. Enquanto aqui no Brasil eu ainda morria de medo de sequer ir fazer compras numa loja de departamento ou de maquiagem, em Miami eu não teria problema de me apresentar no feminino e fazer minhas comprinhas.

Mas eu sabia que precisava de companhia para esta viagem. Alguém que eu confiasse, que conhecesse as lojas dos EUA e, de preferência, que eu tivesse afinidade em viagens. Quem melhor do que minha ex-esposa? 😊

Esta viagem foi mais um divisor na minha vida. Logo no primeiro dia em Miami fizemos umas comprinhas de dia e saímos a noite, aonde eu fui como eu mesma pela primeira vez ❤️. A produção deixou a desejar, mas a emoção e a paz que senti são impossíveis de descrever em palavras.

Pela primeira vez me senti presente no mundo.

O último dia da viagem foi sofrimento puro. Eu tinha me dado conta, durante a viagem, de que eu vivia em um estado de tristeza constante.

A euforia inicial da viagem havia se normalizado com as vitórias conquistadas: sair de saia e sandália, sermos chamadas de “ladies” desde o primeiro dia, ir a provadores e banheiros femininos sem reação alguma de ninguém, botar pela primeira vez meu salto na rua…

Aí caiu a ficha de que, voltando ao Brasil, eu estaria voltando à prisão depois de ter provado o sabor da liberdade. E só fiz chorar. Chorei no almoço, chorei no aeroporto, chorei no avião.

Aproveitei o calor da emoção para escrever o texto que usaria para contar nas minhas redes sociais sobre quem eu realmente era, o que fui fazer em Miami, e apresentar minha nova identidade.

Esperei passar o período das eleições e, no dia 14 de Novembro de 2018, publiquei no meu Facebook esta mensagem.

A receptividade foi espetacular… algumas pessoas já sabiam, mas a vasta maioria dos meus 1000 contatos não fazia idéia.

E desde então venho contando minhas novas experiências em forma de blog e meu dia-a-dia, no instagram.

Conclusão

Espero, com este meu relato, mostrar para vocês que apesar do universo LGBTQI+ parecer distante para alguns, às vezes pode estar mais perto do que se esperava. Somos todos gente. Gente com problemas como os seus. Gente com problemas nada a ver com os seus. Cada um na sua história, no seu teatrinho particular que chamamos de vida.

 

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